sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Feedback: Você está fazendo isso errado

(Revisado: 23/02/12)


“O erudito gasta todas as suas energias dizendo ‘sim’ ou ‘não’ sobre o que já foi pensado, ou na crítica a isso - ele já não é mais capaz de pensar por si mesmo. (...) Vi com meus próprios olhos: naturezas ricamente dotadas de um espírito livre, que, aos trinta anos, já haviam lido a ponto de se arruinar” – Nietzsche, em Ecce Homo.

A maioria das pessoas que entra no Facebook diz estar entrando para manter contato com os amigos. Como esse contato é mantido? Lendo as atualizações. Qual o conteúdo das atualizações? Quase sempre são memes que se espalham como verdadeiras epidemias. O termo “meme” vem das teorias do biólogo Richard Dawkins e do filósofo Daniel Dennett. Numa analogia com os genes, os memes são definidos como unidades de ideias que se replicam em condições favoráveis, combinando-se por seleção para compor uma cultura. Esta definição foi dada no livro Gene egoísta, de Richard Dawkins, e faz parte de uma concepção chamada de Darwinismo Mental.

O problema apontado por Nietzsche na citação acima não é a leitura em si, mas o reflexo condicionado de folhear página após página somente para concordar ou discordar com o maior número de afirmações possível. O erudito seria um viciado nesse tipo de atividade, um indivíduo que perde a capacidade de pensar por si mesmo porque se limita a reagir aos estímulos vindos da leitura. Ele apenas reage, mas não age por si só. Permanece compulsivamente nesta atividade reativa, mesmo que isso prejudique sua saúde. Neste sentido é que os usuários do Facebook estão se tornando como esses eruditos.

            Quando criamos um sistema de feedback (retro-alimentação) que permite a autopropagação de ideias por meio de um mecanismo de estímulo e resposta, criamos uma armadilha para nossas próprias mentes. Uma vez que nossas respostas condicionadas geram novas respostas condicionadas, criamos uma máquina em que estas evoluem e se espalham por si sós, gerando efeitos contra os quais somos indefesos. Estamos sendo privados da liberdade de pensar sobre o que vemos. A liberdade agora pertencente aos memes, que estão livres para circular pela rede e competir numa luta pela sobrevivência, em que o vencedor é aquele capaz de se reproduzir com maior rapidez. As pessoas se tornaram pontos de conexão na rede ao invés de usuários. As ideias agora se relacionam em rede por meio das pessoas, e não as pessoas por meio da rede.

            Talvez seja equivocado usar o conceito de estranhamento, tal como aparece nos manuscritos de Marx. Mas, semelhante ao que ocorre no estranhamento, cada um dos conteúdos compartilhados na internet é produto do tempo de alguém, e este conteúdo se apresenta para nós como algo que existe por si só, algo que expressa uma ideia sem fonte e sem origem definida. Não como uma mensagem que vem de um indivíduo e alcança outro indivíduo, mas como algo que se lança no mundo por meio dos indivíduos. As pessoas se tornaram meios de comunicação, não mais remetentes ou destinatários. Um fenômeno da Internet parece acontecer independentemente da vontade ou da racionalidade humana, mas ainda assim é capaz de produzir movimentos globais, ou simulações de movimentos. Nós temos a tendência de achar que são sempre os outros que estão gastando tempo nestas coisas. Mas todos nós estamos perdendo tempo, porque não estamos adquirindo informação, é a informação que está nos usando para se mover e evoluir. Somos alvo de uma publicidade que surge do nada e escorre para o vazio. Mesmo as mensagens mais significativas são dissipadas no vácuo pela própria repetição que caracteriza seu “sucesso”. É o que chamamos de banalização. Uma vez que as ideias já estabelecidas “regulam” o fluxo de ideias na rede, uma ideia só pode se espalhar de modo bem sucedido se estiver submetida às ideias dominantes. O que quer que não combine com isso provavelmente será considerado “entediante”. Por isso falamos cada vez mais, porém queremos dizer cada vez menos.

            Deveríamos nos ater à distinção entre gostar de algo e se dispor em relação a algo. Gostar de algo significa sofrer uma ação: ser tocado por algo. Dispor-se a agir em relação a algo é bem mais do que reagir clicando num botão. Implica na capacidade de criar uma nova disposição, tanto de pensar quanto de agir, com o objetivo de provocar uma mudança efetiva. Clicar no botão “curtir” é fazer uma classificação. O conteúdo em questão é arquivado na sua lista de “coisas que eu curto”. Definir preferências não é uma interação significativa. Significativo seria perceber como cada meme que se replica na sua mente altera o modo como você enxerga o mundo, as pessoas e a si mesmo; o modo como você se relaciona com a realidade, com sua memória e com suas expectativas. Quando gostamos de um conteúdo que é apenas a descrição de algo que gostamos de fazer na realidade, o que estamos afirmando? Que gostamos do que gostamos, gostamos de gostar do que gostamos, e assim por diante...

            As pesquisas não entram em consenso ao tentar responder se os jovens hoje em dia estão lendo mais. Eles certamente estão lendo e escrevendo muitas mensagens curtas e rápidas. E isto deveria ser considerado um avanço na comunicação. Mas do ponto de vista dos memes, é uma mudança que permite maior aceleração do seu vetor de propagação. Dentro dessa visão determinista, a conclusão é que nossos cérebros estão sendo reprogramados pelos memes para possibilitar uma circulação mais rápida destes. A intolerância a textos longos seria um efeito gerado pela adoção de uma estratégia de propagação mais eficiente de memes, que seriam os verdadeiros agentes do processo. Assim como o hábito de apenas aceitar ou rejeitar instantaneamente o que se lê, ao invés de refletir criticamente sobre o modo como o que é dito afeta a nossa vida.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Eutanásia

Fonte: PavaBlog
Autor: Desconhecido

Fonte: Ryotiras
Autor: Ricardo Tokumoto

Fonte: Ryotiras
Autor: Ricardo Tokumoto



O tema é: Vida moderna

É fácil criticar a televisão quando você faz parte da geração youtube. Mas a televisão pelo menos nos fazia dormir. A internet nos mantém acordados, conectados num tipo muito especial de aparelho: um aparelho interativo. Os publicitários descobriram que se você der "liberdade" para as pessoas interagirem com o conteúdo, elas vão perder mais tempo com ele. A internet é um grande anúncio interativo. A Matrix é uma tendência publicitária.

O Wikileaks acabou gerando a crença de que a internet é um meio de comunicação em que a verdade ainda pode ser encontrada, porque você pode navegar pelo conteúdo, você pode escolher. Mas será que realmente faz diferença?

É possível que já estejamos em estado vegetativo, chamando de liberdade o que não se diferencia de viver conectado a aparelhos. Dependemos de telas cada vez mais. A autonomia que acreditamos ter para escolher acaba sendo redundante quando todas as opções no fundo obedecem uma única lógica. O modo como somos conduzidos a criar um mundo imaginário evoluiu muito, mas a questão é que nosso tempo continua sendo investido naquilo que não existe. A interatividade é um passo do processo que parece mudar tudo, mas assim são todos os passos quando nós ainda estamos nele. E o fato de que o melhor espaço para criticar a internet é a própria internet torna tudo ainda mais complicado.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Beleza e intolerância à verdade

Fonte: Desconhecida
Autor: Quino

O tema é: Verdade.

Vivemos numa sociedade onde a mentira é um modo aceitável de deixar as coisas mais bonitas e menos complicadas, mesmo que essa mentira seja uma omissão ou uma maquiagem. "Onde a ignorância é felicidade, é tolice ser sábio", disse o poeta inglês Thomas Gray, ainda no século XVIII. Mas o conforto causado pela omissão de um dado revela algo mais grave: nossa intolerância à verdade. Nós queremos que nossa imagem seja lembrada pelas pessoas, mas não queremos que essa imagem seja avaliada pelo que realmente é. Ou seja, queremos ser considerados belos, ainda que de fato não sejamos. É esta idéia que está pressuposta em: "se eu não me achar bonita, quem me achará?". Mas atribuir uma qualidade a si mesmo, sem se preocupar se ela é verdadeira, é apenas mentir. A questão é saber porque passamos a depender dessa mentira. Porque chegamos a entrar em depressão quando somos expostos à nossa  verdadeira imagem? 

A intolerância à verdade revela nossa competitividade e nosso desejo de domínio, de tomar o que é do outro para nós. Quando queremos tomar a imagem de um outro para nós mesmos, revelamos nossa intolerância a quem realmente somos, reproduzindo o discurso depreciativo dirigido aos que não se destacam. Aqueles que recebem mais atenção são precisamente aqueles que melhor selecionam o que devem mostrar e o que não devem. Disfarçam sua verdadeira imagem por trás de uma imagem artificial, que é criada por eles para atender uma demanda social, que apenas imita padrões que são considerados bonitos pelas pessoas. O resultado é que a busca da beleza como manipulação da imagem, seja direta ou indireta, pode levar a uma engenharia do consentimento. Tratamos algo como belo somente por atrair a atenção de mais pessoas. E nesse processo, estamos negando sistematicamente a verdade, substituindo-a por critérios de conveniência.

A intolerância à verdade revela tanto a indisposição de aceitar-se quanto a indisposição de aceitar o outro. Nós nos esforçamos cada vez mais para não incomodar as pessoas com a verdade, porque estamos diante de um fenômeno global de fragilização dos nervos. O que seria isso? Quem terá deixado de notar que as pessoas estão cada vez mais estressadas e de pavio cada vez mais curto? Qualquer coisa que falemos de "errado" pode desencadear uma discussão ou uma briga, que pode se tornar violenta. Então nós vamos nos domesticando para aprender a pisar em ovos nas interações, porque os nervos estão à flor da pele, e isso significa que há um grau crescente de intolerância à verdade. Na mesma medida em que detestamos ser "incomodados" com qualquer coisa que nos contrarie, a mentira e a omissão vão se tornando cada vez mais confortáveis e importantes. Chegamos a chamar isso de "gentileza". É cada vez mais difícil manter vínculos, por mais frágeis que sejam, sem tomar o cuidado de não pisar nos "calos" cada vez mais inchados e expostos de uma sociedade que sofre de uma crise ética provavelmente irrecuperável. E é um tipo de duplipensar (fazendo referência à obra de George Orwell), porque mentimos sobre a verdade e mentimos sobre a mentira. Mentimos olhando nos olhos, porque é mais efetivo. Precisamos mentir sobre nossa sinceridade, sobre nosso baixo grau de tolerância à verdade, porque a mentira evoluiu, e uma mentira fraca não é suficiente para nosso grau de dependência da mentira. Então temos que nos esconder em camadas mais profundas de mentira, chamando de "sinceros" as pessoas que sabem administrar uma mentira a ponto de não incomodar a mentira dos outros. Pessoas que assumem sua intolerância à verdade, naturalizando-a, ou que pensam que ser sincero é "dizer o que pensa", como se a mentira só existisse na fala, e não no pensamento. Ser "espontâneo" quase sempre se revela como um artifício, um jogo de linguagem que pretende afirmar um diferencial sobre a atitude relativamente reservada das outras pessoas. Ser histérico, impulsivo, desinibido e desrespeitoso chega a ser confundido com ser espontâneo, e isso vale para homens e mulheres.

A mentira, quando chega nesse nível, deu "uma volta em torno do seu próprio eixo", assim como quando uma propaganda diz que as mulheres preferem que os homens mintam para elas, ou quando um programa de televisão revela ao telespectador que ele de fato está sendo enganado, mas que ele prefere assim. Quando isso acontece, estamos num processo avançado de intolerância à verdade, porque queremos não apenas nos afastar dela, mas também fazê-la perder todo o seu significado, de modo que mesmo que sejamos expostos a ela, agiremos como se nada estivesse acontecendo, preservando nossa mentira e nossa imagem distorcida mas cômoda da realidade. Uma das mentiras mais comuns hoje é dia é aparentar seriedade quando a mesma não se encontra na prática. Acadêmicos e pessoas de vida pública são especialistas nisso. Se trata de uma exigência de uma sociedade em que cada mentiroso quer desvendar a mentira do outro para melhorar sua própria imagem. 

Uma vez eu vi uma garota de uns 13 anos, extremamente tímida, tentando fazer um cosplay de anime num palco ao ar livre, com no mínimo 300 pessoas olhando para ela. Seu cosplay não tinha a menor graça, mas quando ela girou, sua saia subiu e os meninos gritaram. Percebendo que esse era o único modo de não ser vaiada, ela improvisou outros giros, sempre seguidos de gritos de incentivo de um bando de adolescentes. Talvez ela tenha chegado a acreditar que as pessoas realmente gostaram dela, já que sua performance estava gerando uma reação e recebendo atenção, assim como a maioria das mulheres pensa que está bonita quando usa uma roupa ousada, diferente, ou possui um corpo atraente. Mas há uma grande diferença entre ter beleza e apelar para o instinto sexual. O desejo em relação a um objeto sexual, representado pelo corpo, não comporta uma percepção estética nem uma apreciação da forma, como ocorre na contemplação da natureza ou de uma obra artística. Muito do que é considerado "beleza feminina" hoje em dia não passa de técnicas para gerar estímulo sexual, que passa longe de se encaixar em qualquer conceito estético de "belo". Em outras palavras, não apenas não se trata de beleza, mas às vezes do seu extremo oposto. A beleza é apreciada com a sensibilidade, não com o apetite. Se trata então uma manipulação da imagem para aparentar uma beleza inexistente. Nesse sentido, a beleza parece estar em decadência, tanto quanto o valor ético da verdade. 

Quando o sujeito diz que "não existe mulher feia, é você que bebeu pouco", de fato ele está afirmando que a beleza pode resultar da distorção da realidade. A vaidade causa uma competição insana, como um guerra por atenção, em que usamos técnicas para condicionar respostas volitivas com qualquer estímulo que possa se sobrepor aos demais. Para isso usamos cores, formas, sons, aromas e discursos planejados para atrair a atenção, e não a avaliação sóbria e refletida. Isso é técnica publicitária, vendemos nossa imagem sem apresentar o conteúdo. Quando alguém usa algo que chama a atenção (que gera um estímulo mais forte que os outros), os outros precisam copiar para permanecer competitivos, e se possível chamar ainda mais atenção, o que sobrecarrega os estímulos, elimina a criatividade, e cria uma corrida sem fim. Uma guerra armamentista da aparência. Depois reclamamos que dá muito trabalho viver assim. Nós gastamos mais dinheiro para manter uma aparência competitiva do que com educação. Mas quanto mais a guerra avança, mais perdemos a capacidade de perceber a beleza natural das coisas, assim como um paladar saturado de condimentos não consegue mais sentir o gosto natural dos alimentos. Nós trocamos a beleza pela manipulação da imagem. A manipulação da imagem protege da verdade, nos dando a credencial de uma beleza que de fato não temos, porque perdemos nossa sensibilidade para a beleza. 

Quando passamos a meramente reproduzir o que é considerado belo pelo senso comum, estamos fazendo o mesmo que alguém que reproduz o senso comum como se fosse um conhecimento objetivamente válido. Assim como o pseudo-intelectual é um ignorante que se passa por sábio, a pessoa que segue um modelo apenas se passa por bela. Mas no reino da beleza nós aceitamos a aparência por realidade. Nós perdemos exatamente aquilo que admiramos na natureza: nossa existência, por si só, deixa de ser bela. Este processo provavelmente faz parte da nossa desconexão com a natureza: deixamos de ser belos como as coisas naturais, passamos a ser reproduções daquilo que apela para os impulsos irracionais da mentalidade civilizada. Deixamos de ser belos para atrair pulsões de consumo.

Mas a verdade não é decepcionante em si mesma. Ela decepciona apenas aquele que vive na mentira e não quer conhecer a verdade. É claro que a verdade não pode ser exposta de modo massacrante. Não devemos usar a verdade para esfaquear ou mesmo alfinetar as pessoas desnecessariamente. Certamente nós todos temos um grau de dependência da mentira, e crenças falsas que não podem ser tiradas de nós sem nos deixar sem chão. E todos nós temos a necessidade de ser amados para que possamos nos sentir bem com nossa própria existência. Mas isso não implica em aceitar a manipulação da imagem que visa chamar a atenção, porque isso não é gostar de si mesmo, é tentar ser aquilo que as pessoas querem, que não é necessariamente ser belo. Querer ser amado dessa forma é de fato odiar a si mesmo. A insegurança é a raiz da vaidade. Melhorar sua aparência não eleva sua auto-estima, apenas abafa as vaias de um mundo tornado insensível e faminto por corpos. Faz você conviver melhor com aqueles cuja beleza te causa uma inveja esmagadora, porque concentram toda a atenção. Num mundo onde estamos cada vez mais solitários, a atenção vai se tornando cada vez mais valiosa, mas o preço a pagar pode ser maior do que imaginamos. Não é que se preocupar com a beleza é errado, mas que a beleza, enquanto valor objetivo, é deturpada por uma sociedade competitiva, gerando perversão. A beleza pervertida, submetida ao mercado da beleza, é como o sexo pervertido, submetido ao mercado do sexo.

Neste contexto, a crença de que "não existe verdade" surge como um escudo protetor contra qualquer um que queira te impedir de ser feliz com sua mentira. Assim como o personagem da tira preferia que o formato da sua cabeça não se parecesse com objetos comuns, nós pensamos que afirmações podem ser fatos sem serem verdadeiros ou falsos, isto é, sem se relacionarem objetivamente com a realidade. Não porque queremos evitar o domínio por parte de pretensos "donos da verdade", mas porque tememos que nossos defeitos sejam expostos, que se revele que nossa percepção pode ser corrigida, e que somos insuficientes para um mundo exigente demais, faminto por atributos extraordinários.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

O espectro do capital

Fonte: http://www.malvados.com.br
Autor: André Dahmer


Autor: Ricardo Tokumoto

O tema é: Sistema financeiro

É muito fácil se irritar com os bancos, mas é muito difícil pensar de modo diferente que os banqueiros. O primeiro quadrinho indica que a estrutura dos bancos é elitista e injusta, mas as pessoas não fazem nada contra isso porque não conseguem viver sem os bancos. O segundo quadrinho indica que existe algo indistinguível de um roubo na atividade bancária, mas seria um tipo de crime legalizado pelo Estado e disfarçado de algo "feliz".

Há muitas interpretações para isso. Uma delas é que o sistema econômico seria um grande Esquema Ponzi, uma grande pirâmide de dinheiro, onde o lucro é concentrado nas mãos de alguns, e o resultado é um colapso inevitável. Outro é que a usura é mantida com base numa espécie de controle social, em que os cidadãos simplesmente não estão informados sobre a origem do seu dinheiro e o que está por trás de suas dívidas. Existem vídeos na internet mostrando como o dinheiro é multiplicado a partir dos juros, e que isso é insustentável. A principal razão pela qual esses vídeos são populares é que a maioria das pessoas detesta pagar juros. E a principal razão pela qual nada muda é que apesar disso, as pessoas amam receber o dinheiro dos juros. Quando uma coisa entra em conflito com a outra, o amor pelo dinheiro parece falar mais alto.

sábado, 27 de novembro de 2010

Síndrome de ovelha negra

Fonte e autor desconhecidos (Se você conhece, me avise)



Autor: Ricardo Tokumoto

O tema é: Individualização

A sociedade contemporânea apresenta algumas características peculiares, como o fato de que alguém queira ser diferente no meio de uma multidão de pessoas que também querem ser diferentes de todas as outras. De fato, essa sociedade parece ter ajustado a individualização à massificação, obtendo um método de reprodução social que se foca na unicidade do indivíduo apenas para torná-lo uma das milhões de partículas absolutamente incomparáveis que compõem uma mesma massa indiferente. Os meios de comunicação de massa exploram desejos individuais, valorizando o "seja você mesmo" com base numa análise estatística, que tem um efeito abrangente de reordenação de comportamentos. Então, ela torna possível que uma idéia aparentemente original seja de fato um produto de uma difusão global. Isto acontece porque existem meios e técnicas eficazes para propagar "memes" (ideias virais) sem que o receptor perceba o que está deixando entrar. É uma transmissão inconsciente ou subliminar de informação. Teoricamente, é possível introduzir idéias na mente de uma pessoa na forma inerte. Essas idéias permanecerão adormecidas até que algo as desperte, isso é chamado de "gatilho". Então elas são se ativar e emergir como uma idéia própria. Plim! Eureka! Como não pensei nisso antes? Acende-se uma lâmpada logo acima da cabeça.

Uma das melhores maneiras de fazer as pessoas não perceberem que estão sendo manipuladas é fazendo-as aceitar a seguinte crença: "Todos estão sendo manipulados, e eu sou o único que sabe que todos estão sendo manipulados. Mas não posso dizer para eles porque, já estão sendo manipulados, eles iriam negar até a morte".

Muitas pessoas odeiam ir ao psicólogo porque percebem que assim que falarem sobre aquilo que consideram ser a parte mais singular da sua personalidade, isso logo será identificado como uma formulação típica de um tipo de personalidade comum. Aquilo que elas pensavam que as separava de todo o resto da humanidade é, na verdade, mais uma das manifestações previsíveis que definem um ou outro tipo de personalidade já catalogado. E mesmo que seu caso seja patológico, ainda assim provavelmente será uma patologia já classificada num dos anais da psicologia. Lá se foi sua singularidade.

A internet possibilitou que pessoas que pareciam ser completamente desajustadas ao seu meio social encontrassem centenas ou milhares de outras pessoas tão esquisitas quanto elas. Aliás, pessoas com exatamente as mesmas idéias bizarras, como por exemplo o desejo de cortar uma perna ou um braço. As pessoas que estavam isoladas conseguiram criar um espaço social para "se isolar em grupo". Graças a essa incrível possibilidade de socialização e integração, conseguiram se mobilizar em grupos solidários para, por exemplo, se apoiar na decisão de se auto-amputar ou então cometer suicídio. É claro, nem tudo é tão drástico, algumas pessoas se reúnem só para ficarem se ofendendo ou compartilhando informações pessoais valiosas para as empresas de pesquisa de opinião do consumidor.

Não é irônico quando a maioria das pessoas diz que a maioria das pessoas é burra (ou desonesta, por exemplo), mas que ela faz parte da exceção? Seria um grande desafio estatístico tentar encontrar pessoas que não se considerem parte dessa exceção.

A questão parece ser a seguinte: A massa é irracional, mas o indivíduo é racional. E nós sempre nos vemos como o indivíduo, nunca como parte da massa. A massa é sempre composta dos "outros". Esta é a base da individualização. Ela não nega a massificação, mas a torna invisível para o indivíduo. Nós observamos os fenômenos sociais do ponto de vista de um homem que amplia tanto a imagem que só consegue ver pontinhos, e não consegue mais perceber a imagem completa da qual esses pontos fazem parte.

O que fazer? Prestar mais atenção.